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Pai

 

Pai

Filho que cresceu de repente e quando vê já tem seu próprio filho.

 

Adriana Falcão em Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento - São Paulo:

Richmond Educação, 2013, p. 70.

 

Palavra de filho

Carlos Queiroz Telles

 

Não sei o que houve.

Não sei o que aconteceu.

 

Aquele paizão legal,

papai que sabia tudo,

papai que podia tudo,

meio mágico,

meio deus...

de repente virou gente,

gente grande,

gente chata,

pai demais,

somente pai.

 

Por que foi que ele mudou?

De cara,parece o mesmo.

Vontade de abraçá-lo,

Vontade de beijá-lo...

e uma distância imensa

brecando o abraço

e o beijo.

 

Vontade de vê-lo menino

sendo ainda seu menino.

 

Vontade de brincar muito

e depois dormir

abraçado no travesseiro,

sentindo seu  cheiro

ao lado da cama.

Cheiro de paz

e de segurança.

Cheiro de amor

e de noite boa.

 

Agora,porém,

sua presença ficou estranha,

tão estranha

que já nem sei como lhe dizer

entre uma briga

e uma palavra mais feia

o que grita meu coração:

 

Papai,

eu gosto muito

de você.

Extraído do livro Sonhos, grilos e paixões/ Carlos Queiroz Telles -São Paulo: Moderna, 2003, pp. 58-59.          

 

As mãos de meu pai

Mário Quintana

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis 
sobre um fundo de manchas já cor de terra 
— como são belas as tuas mãos  
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da
                                            [nobre cólera dos justos... 
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa

                  [beleza que se chama simplesmente vida. 
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços

                                                  [da tua cadeira predileta, 
uma luz parece vir de dentro delas... 
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, 
     [vieste alimentando na terrível solidão do mundo, 
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los

                                                                  [contra o vento? 
Ah, Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre

                                                                  [das tuas mãos! 
E é, ainda, a vida que transfigura das tuas mãos nodosas... 
essa chama de vida — que transcende a própria vida
... e que os Anjos, um dia, chamarão de alma. 

Extraído do livro 80 anos de poesia/ Mário Quintana - São Paulo: Globo, 2008, p. 173.

 

Relacionamento

Elias José

 

 Por que meu pai me olha

 com tantas interrogações,

 com tantas reticências?...

 

 Por que me olha com medo

 e com tanta esperança?

 

 O medo de meu pai me encoraja,

 me desafia e me ajuda

 a segurar a barra.

 

 A esperança de meu pai me assusta,

 me torna reticente, incerto,

 interrogativo como ele.

 

Cantigas de adolescer/ Elias José

 

Primeiro toque 

Moacyr Scliar

  (...) 

Pai olhando pai, o que vê? Uma face familiar, mais familiar do que gostaria que fosse.

As primeiras rugas, talvez, os primeiros cabelos brancos; as manchas escuras da idade

no dorso das mãos.

Pai olhando pai vê o tempo que passou; um pai é feito de tempo, de muito tempo. Das noites

em claro à cabeceira do filho doente; das horas alegres na praia e no campo de futebol; dos

minutos de raiva, dos instantes de frustração, dos anos que se escoam na lenta construção de

uma vida. 

Filho olhando filho, o que vê? Uma face demasiado jovem, num corpo demasiado imaturo. A

incômoda acne, talvez; orelhas grandes demais, mãos que nunca encontram seu lugar.Filho

olhando filho quer que o tempo passe, que ele também se torne pai.

Filho olhando filho quer ver pai. Pai olhando pai quer ver filho. Filho olhando pai quer

ver o futuro; pai olhando filho quer recuperar o passado. Equações que, como a vida, têm muitas

incógnitas. Mas a vida, diferente das equações, tem muitas alegrias. Como esta, que resulta do

olhar de pais e filhos; mirando-se, descobrindo-se e, sobretudo, se amando.

 

 Trecho de crônica publicada no Jornal Zero Hora em 14 agosto de 1988.

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