EducaPX SitePX AWS Contraste Aumentar/Diminuir a fonte

Natal e Ano Novo

 

Textos sobre Natal e Ano Novo

 

Poema de Natal

Vinícius de Moraes

Para isso fomos feitos: 
Para lembrar e ser lembrados 
Para chorar e fazer chorar 
Para enterrar os nossos mortos - 
Por isso temos braços longos para os adeuses 
Mãos para colher o que foi dado 
Dedos para cavar a terra. 

Assim será a nossa vida: 

Uma tarde sempre a esquecer 
Uma estrela a se apagar na treva 
Um caminho entre dois túmulos - 
Por isso precisamos velar 
Falar baixo, pisar leve, ver 
A noite dormir em silêncio. 

Não há muito que dizer: 

Uma canção sobre um berço 
Um verso, talvez, de amor 
Uma prece por quem se vai - 
Mas que essa hora não esqueça 
E por ela os nossos corações 
Se deixem, graves e simples. 

Pois para isso fomos feitos: 
Para a esperança no milagre 
Para a participação da poesia 
Para ver a face da morte - 
De repente nunca mais esperaremos... 
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas 
Nascemos, imensamente.

Extraído do livro: Poemas, sonetos e baladas, Edições Gavetas - São Paulo, 1946

 

 O rei menino 

Carlos Drummond de Andrade

(...)

O menino, apenas um menino, 

acima das filosofias, da cibernética e dos dólares,

sustenta o peso do mundo

na palma ingênua das mãos.

Trecho extraído do livro Receita de Ano Novo , Record - Rio de Janeiro, 2011, p.31

 

Canto de Natal

Manuel Bandeira


O nosso menino

Nasceu em Belém.

Nasceu tão-somente

Para querer bem.


Nasceu sobre as palhas

O nosso menino.

Mas a mãe sabia

Que ele era divino.


Vem para sofrer

A morte na cruz,

O nosso menino.

Seu nome é Jesus.


Por nós ele aceita

O humano destino:

Louvemos a glória

De Jesus menino.


Extraído do livro Para querer bem - antologia poética de Manuel Bandeira; organizado por

Bartolomeu Campos de Queirós- São Paulo:Moderna, 2005, p.23.

 

A máquina do tempo

Carlos Drummond de Andrade

Se a máquina do tempo nos tritura,

ao mesmo tempo cria imagens novas.

Renascemos em cada criatura

que nos traz do Infinito as boas novas.

Texto extraído do livro Receita de Ano Novo , Record- Rio de Janeiro, 2011, p.55

 

Disfarce

Carlos Drummond de Andrade

Na manjedoura? No presépio?

No chão, diante de um pórtico arruinado, (...)?

Na capelinha torta de São Gonçalo do Rio Abaixo?

(...)

Nasce a cada dezembro e nasce de mil jeitos.

Temos de pesquisá-lo até na gruta dos nossos defeitos.

Extraído do livro Receita de Ano Novo , Record - Rio de Janeiro, 2011, pp. 25-27

 

Procuro uma alegria

Carlos Drummond de Andrade

Procuro uma alegria

na mala vazia

do final do ano

e eis que tenho na mão

- flor do cotidiano –

o voo de um pássaro

e de uma canção.

Extraído do livro Receita de Ano Novo , Record - Rio de Janeiro, 2011, p.111

 

Flui a vida como água

Carlos Drummond de Andrade

Flui a vida como água,

como água se renova.

Se a vida me foge, afogo-a

em cada esperança nova.

Extraído do livro Receita de Ano Novo , Record - Rio de Janeiro, 2011, p.107

 

Receita de Ano Novo

Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo 

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 

Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 

(mal vivido talvez ou sem sentido) 

para você ganhar um ano 

não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 

mas novo nas sementinhas do vir a ser; 

novo 

até no coração das coisas menos percebidas 

(a começar pelo seu interior) 

novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 

mas com ele se come, se passeia, 

se ama, se compreende, se trabalha, 

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 

não precisa expedir nem receber mensagens 

(planta recebe mensagens?

passa telegramas?) 

Não precisa 

fazer lista de boas intenções 

para arquivá-las na gaveta. 

Não precisa chorar arrependido 

pelas besteiras consumadas 

nem parvamente acreditar 

que por decreto de esperança 

a partir de janeiro as coisas mudem 

e seja tudo claridade, recompensa, 

justiça entre os homens e as nações, 

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 

direitos respeitados, começando 

pelo direito augusto de viver. 

Para ganhar um ano-novo 

que mereça este nome, 

você, meu caro, tem de merecê-lo, 

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 

mas tente, experimente, consciente. 

É dentro de você que o Ano Novo 

cochila e espera desde sempre.

Extraído do livro Receita de Ano Novo , Record - Rio de Janeiro, 2011, pp. 117-119

 

Esperança

Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

Vive uma louca chamada Esperança

E ela pensa que quando todas as sirenas

Todas as buzinas

Todos os reco-recos tocarem

Atira-se

E

— Ó delicioso voo!

Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,

Outra vez criança...

E em torno dela indagará o povo:

— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?

E ela lhes dirá

(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)

Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA... 

Texto extraído do livro Nova Antologia Poética, Editora Globo - São Paulo, 1998, p. 118.

 

Os Votos

Sérgio Jockymann

" Pois desejo que você ame e que amando, seja também amado.

E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa.

Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar. 

Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconsequentes sejam corajosos

e fiéis.

E que em pelo menos em um deles você possa confiar e que confiando não duvide de sua

confiança.

E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos nem poucos,

mas na medida exata para que algumas vezes você interprele a respeito de suas próprias certezas.

E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo para que você não se sinta demasiadamente

seguro.

Desejo depois que você seja útil, não insubstituivelmente útil mas razoavelmente útil.

E que nos maus momentos, quando não restar mais nada, essa utilidade seja suficiente para

manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante, não com que os que erram pouco, porque isso é fácil, mas

com aqueles que erram muito e irremediavelmente.

E que essa tolerância nem se transforme em aplauso nem em permissividade, para que assim

fazendo um bom uso dela, você dê também um exemplo para os outros.

Desejo que você sendo jovem não amadureça depressa demais, e que sendo maduro não insista

em rejuvenescer, e que sendo velho não se dedique a desesperar.

Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso deixar que eles escorram dentro

de nós.

Desejo por sinal que você seja triste, não o ano todo, nem um mês e muito menos uma semana,

mas apenas por um dia.

Mas que nesse dia de tristeza, você descubra que o riso diário é bom, o riso habitual é insosso e

o riso constante é insano.

Desejo que você descubra com o máximo de urgência, acima e a despeito de tudo, talvez agora

mesmo, mas se for impossível amanhã de manhã, que existem oprimidos, injustiçados e infelizes.

E que estão à sua volta, porque seu pai aceitou conviver com eles.

E que eles continuarão à volta de seus filhos, se você achar a convivência inevitável.

Desejo ainda que você afague um gato, que alimente um cão e ouça pelo menos um João-de-barro

erguer triunfante seu canto matinal.

Porque assim você se sentirá bom por nada.

Desejo também que você plante uma semente por mais ridículo que seja e acompanhe seu

 crescimento dia a dia, para que você saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro porque é preciso ser prático. E que pelo menos

uma vez por ano você ponha uma porção dele na sua frente e diga: Isto é meu.

Só para que fique claro quem é o dono de quem.

Desejo ainda que você seja frugal, não inteiramente frugal, não obcecadamente frugal, mas apenas

usualmente frugal.

Mas que essa frugalidade não impeça você de abusar quando o abuso se impuser.*

Desejo também que nenhum de seus afetos morra, por ele e por você. Mas que se morrer, você

possa chorar sem se culpar e sofrer sem se lamentar.

Desejo por fim que, sendo mulher, você tenha um bom homem e que sendo homem tenha uma

boa mulher.

E que se amem hoje, amanhã, depois, no dia seguinte, mais uma vez e novamente de agora até

o próximo ano acabar.

E que quando estiverem exaustos e sorridentes, ainda tenham amor pra recomeçar.

E se isso só acontecer, não tenho mais nada para desejar.”

Fonte: Jornal Folha da Tarde , Porto Alegre, 30 de Dezembro de 1978.

O texto original está disponível no blog do jornalista Emílio Pacheco

 

Observações: O texto Os votos  circula pela internet  sob o título Desejo com autoria atribuída ao

poeta francês Victor Hugo, mas várias  pesquisas indicam que o verdadeiro autor é o jornalista e

escritor gaúcho Sérgio Jockymann  e o título original é o que apresentamos. 

A música  Amor pra recomeçar, escrita por Mauro Santa Cecília e gravada por Frejat,  indica

inspiração nesse texto.

 

 

 

 

voltar ao topo

left fsN normalcase center tsN fwB show|left fwR tsN hide|left fwR tsN center hide|bnull|||login news c05|fsN normalcase c05 tsN fwB bsd b10|b01 c05 bsd|login news fwR normalcase c05|tsN fwR c05 normalcase bsd b10|normalcase fwR c05|content-inner||