EducaPX SitePX AWS Contraste Aumentar/Diminuir a fonte

Intertextualidade

Intertextualidade: Textos e autores que dialogam 

 

A intertextualidade é um dos recursos da produção textual. Ocorre quando um texto

faz referência a outro, estabelecendo um diálogo que ganha sentido a partir do repertório

de leitura do autor e do leitor. Pode relacionar textos de diferentes gêneros e autores de

diferentes épocas.

Entre os vários meios de intertextualidade, destacam-se a paródia e a paráfrase.

A paráfrase constitui-se na recriação textual, mantendo a mesma ideia contida no texto original.

É o caso do poema Canção do exílio - Meu lar, de Casimiro de Abreu, em relação ao poema

Canção do Exílio, de Gonçalves Dias. Percebe-se que a exaltação da pátria e o saudosismo de

Gonçalves Dias está presente também no poema de Casimiro de Abreu, seu contemporâneo.

Na paródia  também ocorre a recriação de um texto, entretanto, com caráter contestador, irônico,

voltado para a crítica, como pode ser constatado em  textos de vários autores, em diversas

épocas, referindo-se ao poema Canção do Exílio, o mais parodiado da literatura brasileira.

Além da literatura, a intertextualidade está presente em  diversas manifestações artísticas: na

 escultura,  na dança,  na pintura, na linguagem dramática, na linguagem cinematográfica, nas

 charges e nos cartuns, entre outros exemplos. Assim , constata-se que  as relações intertextuais

 surgem do diálogo estabelecido entre textos e entre contextos.

 

Canção do Exílio

Gonçalves Dias

 

"Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

 

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossas flores têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

 

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

 

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar - sozinho, à noite -

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

 

Não permita Deus que eu morra

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu'inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá."

 

Extraído do livro  Como ler poesia/José de Nicola e Ulisses Infante - São Paulo: Scipione,1993,

p.75. O poema Canção do exílio, escrito em 1843, inspirou vários outros.

 

Canção do exílio

Meu lar

Casimiro de Abreu

 

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,

Meu Deus! não seja já;

Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,

Cantar o sabiá!

 

Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro

Respirando este ar;

Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo

Os gozos do meu lar!

 

O país estrangeiro mais belezas

Do que a pátria, não tem;

E este mundo não vale um só dos beijos

Tão doces duma mãe!

 

Dá-me os sítios gentis onde eu brincava

Lá na quadra infantil;

Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,

O céu do meu Brasil!

 

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,

Meu Deus! não seja já!

Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,

Cantar o sabiá!

 

(...)

Extraído do livro Como ler poesia/José de Nicola e Ulisses Infante - São Paulo: Scipione,1993, p.77.

 

Canção do exílio

Murilo Mendes

 

Minha terra tem macieiras da Califórnia

onde cantam  gaturamos de Veneza.

Os poetas da minha terra

são pretos que vivem em torres de ametista,

os sargentos do exército são monistas, cubistas,

os filósofos são polacos vendendo a prestações.

 

A gente não pode dormir

com os oradores e os pernilongos.

Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.

 

Eu morro sufocado

em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas

nossas frutas mais gostosas

mas custam cem mil réis a dúzia.

 

Ai quem me dera chupar uma carambola de  verdade

e ouvir um sabiá com certidão de idade!

Extraído do livro Como ler poesia/José de Nicola e Ulisses Infante - São Paulo: Scipione,1993, p.81.

 

Canto de regresso à pátria

Oswald de Andrade

 

Minha terra tem palmares

Onde gorjeia o mar

Os passarinhos daqui

Não cantam como os de lá

 

Minha terra tem mais rosas

E quase tem mais amores

Minha terra tem mais ouro

Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas

Eu quero tudo de lá

 

Não permita Deus que eu morra

Sem que volte pra São Paulo

Sem que eu veja a rua 15

E o progresso de São Paulo

 

Extraído do livro Como ler poesia/José de Nicola e Ulisses Infante - São Paulo: Scipione,1993,p. 79.

 

Canção do exílio facilitada

José Paulo Paes

 

…sabiá

…papá

…maná

…sofá

…sinhá

…cá?

bah!

 

Extraído do livro Como ler poesia/José de Nicola e Ulisses Infante - São Paulo: Scipione,1993,

p. 89.

 

Canção da rua Casimiro de Abreu

Sérgio Caparelli

 

Outros bairros tem palmeiras,
Bem-te-vis e sabiás,
Mas o Bom Fim estende tapetes
De flores de jacarandás.

Não quero ir para longe
E ficar triste, a cismar,
Pertinho dos gaturanos,
Distante dos jacarandás.

E se existem tantas pessoas
Cismando com sabiá,
Não permita, Deus, que morram,
Sem que venham para cá.

Entre as flores de setembro
Caindo dos jacarandás.

 

Extraído do livro 111 poemas para crianças/ Sérgio Capparelli - Porto Alegre: L&PM, 2003, p.59.

 

Uma Canção 

Mario Quintana

 

Minha terra não tem palmeiras …

E em vez de um mero sabiá,

Cantam aves invisíveis

Nas palmeiras que não há.

 

Minha terra tem refúgios,

Cada qual com a sua hora

Nos mais diversos instantes …

Mas onde o instante de agora?

 

Mas a palavra “onde”?

Terra ingrata, ingrato filho,

Sob os céus de minha terra

Eu canto a Canção do Exílio.

 

Extraído do livro Como ler poesia/José de Nicola e Ulisses Infante - São Paulo: Scipione,1993, p. 83.

 

Outra Canção do Exílio

Eduardo Alves da Costa

 

Minha terra tem Palmeiras,

Corinthians e outros times

de copas exuberantes

que ocultam muitos crimes.

As aves que aqui revoam

são corvos do nunca mais,

a povoar nossa noite

com duros olhos de açoite

que os anos esquecem jamais.

 

Em cismar sozinho, ao relento,

sob um céu poluído, sem estrelas,

nenhum prazer tenho eu cá;

porque me lembro do tempo

em que livre na campina

pulsava meu coração, voava,

como livre sabiá; ciscando

nas capoeiras, cantando

nos matagais, onde hoje a morte

tem mais flores, nossa vida

mais terrores, noturnos,

de mil suores fatais.

 

Minha terra tem primores,

requintes de boçalidade,

que fazem da mocidade

um delírio amordaçado:

acrobacia impossível

de saltimbanco esquizóide,

equilibrado no risível sonho

de grandeza que se esgarça e rompe,

roído pelo matreiro cupim da safadeza.

 

Minha terra tem encantos

de recantos naturais,

praias de areias monazíticas,

subsolos minerais

que se vão e não voltam mais.

 

 A chorar sozinho, aflito,

penso, medito e reflito,

sem encontrar  solução

a não ser voar  para dentro,

voltar as costas à miséria,

à doença e ao sofrimento,

que transcendem o quanto possam

o pensamento conceber

e a consciência suportar.

 

Minha terra tem palmeiras

a baloiçar, indiferentes

aos poetas e dementes

que sonham de olhos abertos

a rilhar os dentes.

 

Não permita Deus que eu morra

pelo crime de estar atento;

e possa chegar à velhice

com os cabelos ao vento

de melhor momento.

 

Que eu desfrute os primores

do canto do sabiá,

onde gorjeia a liberdade,

que não encontro por cá.

 

Extraído do livro No caminho, com Maiakóvski/ Eduardo Alves da Costa - Rio de Janeiro:

Nova Fronteira, 1985. 

 

Canção do desabafo

Rita Lopes

Minha terra tem corruptos.
Cínicos senhores do poder
Envolvidos em mentiras, propinas e tramas mil,
Fazem o povo padecer.

Nosso futuro cobriu-se de incerteza.
Nossa vida ficou difícil, com inflação e outros temores.
Nossa gente sem garantia de saúde, educação e comida na mesa.
Nossos direitos ameaçados, cenário sombrio para os trabalhadores.

Quando ouço os discursos,
Ponho-me a pensar:
Cínicos senhores do poder,
Pensam que conseguem a todos enganar!

Minha terra tem trabalhadores
Que vivem a lamentar:
Como pode tanto imposto
A vida do povo nada melhorar!
Minha terra tem cínicos senhores do poder
Que nos fazem padecer.

Não permita Deus que eu morra
Sem que eu possa comemorar;
Sem que veja nosso povo
Os corruptos desbancar;
Sem que veja o poder do voto
O cinismo derrotar.

 

Além dos textos apresentados, há inúmeras paródias do poema Canção do Exílio.

Uma curiosidade:

Um trecho do poema Canção do Exílio integra o Hino Nacional Brasileiro, escrito por

Joaquim Osório Duque Estrada:

Do que a terra, mais garrida,
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores,
"Nossos bosques têm mais vida", 
"Nossa vida" no teu seio "mais amores."

Saiba mais  sobre essa intertextualidade.

 

Outros diálogos entre textos:

 

Clique aqui e veja a relação entre: Monte Castelo (Renato Russo) / Soneto 5 (Camões) /

Coríntios 13 (Paulo/ Bíblia).

 

Quadrilha

Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e

Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

 

Quadrilha da sujeira

Ricardo Azevedo

João joga um palitinho de sorvete na

rua de Teresa que joga uma latinha de

refrigerante na rua de Raimundo que

joga um saquinho plástico na rua de

Joaquim que joga uma garrafinha

velha na rua de Lili.

 

Lili joga um pedacinho de isopor na

rua de João que joga uma embalagenzinha

de não sei o que na rua de Teresa que

joga um lencinho de papel na rua de

Raimundo que joga uma tampinha de

refrigerante na rua de Joaquim que joga

um papelzinho de bala na rua de J. Pinto

Fernandes que ainda nem tinha

entrado na história.

Extraído do livro: Você Diz Que Sabe Muito, Borboleta Sabe Mais, Fundação Cargill

 

A música Flor da idade , de Chico Buarque, interpretada por Oswaldo Montenegro,

também dialoga com o poema Quadrilha.

 

 

 voltar ao topo

left fsN normalcase center tsN fwB show|left fwR tsN hide|left fwR tsN center hide|bnull|||login news c05|fsN normalcase c05 tsN fwB bsd b10|b01 c05 bsd|login news fwR normalcase c05|tsN fwR c05 normalcase bsd b10|normalcase fwR c05|content-inner||